Com base em estudos de Deleuze, Nietzsche e principalmente de Foucault, o filme mostrará um estudo de pessoas que vivem à margem da sociedade: prostíbulos, hospitais, hospícios, prisões e até escolas serão abordados como locais em que se restituem as rupturas, falhas e instabilidade da cultura moderna ocidental.
O vídeo também tem como propósito definir como discursos não são acúmulo linear de verdades, mas sim que eles pertencem a uma prática histórica.
Esses dois objetivos serão alcançados tendo-se em vista, em um primeiro momento, os pensamentos de Foucault. O filme tratará da investigação de um poder que se exerce, da análise de instituições disciplinares que produzem efeitos multiplicados pelas estratégias de saber e de verdade. Portanto, para Foucault, não basta afirmar que o poder reprime, mas sim mostrar os mecanismos de que ele se utiliza: os jogos de força, de combate, de enfrentamento.
Foucault analisa os efeitos de poder/saber sobre o indivíduo; esse poder não é ideológico; ele produz discursos de verdade, ele faz circular em certas instituições o discurso verdadeiro, produtor de saber, pelo qual somos julgados, condenados, classificados, obrigados a tarefas, destinados a uma certa maneira de viver ou a uma certa maneira de morrer, em função de discursos verdadeiros, que trazem consigo efeitos específicos de poder.
As ciências humanas são o alvo dessa análise, pois são elas aquelas que produzem saber que se relaciona a certos tipos de poder, como o de controle das condições de vida, da saúde, da sexualidade, da loucura, da cura...
A genealogia (método utilizado por ele em seus estudos) traz a tona os saberes sujeitados a técnicas de poder e desmascara discursos que se formam em nome de um conhecimento verdadeiro. Esses novos saberes e discursos descobertos pela genealogia devem se fazer valer contra a teoria que os filtra, hierarquiza, ordena. Essa forma de crítica aos discursos e saberes normalizadores não é direcionada aos seus métodos ou aos conceitos de uma ciência e sim aos efeitos de sua institucionalização.
Foucault investe contra as instituições que produzem indivíduos adestrados e pelas quais o poder transita e que tem como finalidade obter um efeito multiplicador de produtos sem custos para o próprio poder soberano investir, usar, colonizar, lucrar. Essas instituições têm um uso político e até ideológico, pois com os discursos carregados de saberes que as sustentam, buscam um efeito incidente sobre o corpo, sujeitando forças, capacitando para o trabalho.
As formações discursivas se ligam a análise que percebe, diagnostica as relações entre saber e poder, as quais, por sua vez tecem o biopoder. O biopoder vem como o poder de gerir a vida da população, sua saúde, possibilitando governamentalidade e ainda gerando a disciplinarização dos corpos dos indivíduos, o que garante obediência e docilidade.
Essa nova modalidade de poder sobre a vida, essa estatização biológica, não atua no nível da filosofia ou da terapia política, mas no nível dos mecanismos técnicos, tecnologias do poder, prolongando os efeitos do poder disciplinar sobre seu alvo vivo, o homem.
A vida de todos, juntamente com seus fenômenos (nascimento, óbito...) é transformação em um só corpo, que pode ser regularizado, tornando mais fácil a análise de doenças que incidem sobre a população, por exemplo, constatando gastos para manter o alicerce produtivo do sistema social. Desse modo é construído todo um aparato para cuidar da higiene pública, há toda uma medicalização da população, disponibilizando seguridade social. Numa palavra, a população é regulamentada.
O biopoder serve também para estabelecer uma linha entre o que deve permanecer vivo e o que deve morrer, fragmenta o campo biológico em termos de raças. Eliminar o anormal, as espécies inferiores, os degenerados, a fim de fortalecer a espécie sadia, que poderá proliferar. A raça, diz Foucault, o racismo, é a condição de aceitabilidade de tirar a vida numa sociedade de normalização. Nazismo, fascismo, são fatores produzidos pela sociedade da normalização e pela normalização da sociedade.
No lugar da lei, a norma; o corpo é adestrado, a população é mantida ativa e saudável, e assim governável pelo biopoder.
Todo esse dispositivo do biopoder que torna o povo governável pode ocorrer dentro da sociedade ocidental moderna graças à “cultura” da confissão que está embutida no interior de cada um. Essa confissão ocorre a todo o momento, confessa-se incessantemente para outro que é considerado dotado de propriedade, seja essa propriedade pedagógica, cientifica, medica, eclesiástica (um padre, um psicólogo, um medico, um professor...). É ela que torna o sujeito conhecível ao governo dando ao soberano subsídios e bases a respeito da realidade de cada grupo ou de cada sujeito em particular, uma vez que, para se governar de forma eficaz o governador deve proteger seu “rebanho” das agruras do dia a dia, e, para que isso ocorra, ele deve conhecer cada um e todos de forma integral.
Enfim, fornecendo esse conteúdo a respeito da vida do povo o governo pode oferecer o que esse sujeito precisa, com isso tem a chance de domesticá-lo, ou seja, conhecendo um sujeito pode-se oferecer o que lhe interessa e assim a governamentabilidade pode se fazer efetivamente, sendo que, cada estratégia de biopoder é destinada a um público alvo graças a esse aparato confessional que cada um dá ao governo, ao soberano, por meio de instituições que servem como meio de captação dessas confissões.

O filme será dividido em 4 partes principais. Primeiro se mostrará as situações de marginalização da sociedade; em segundo como é interessante para o governo conservar e promover essas instituições “normalizadoras” em meio ao plano social; então se mostrará o próprio ato confessional em meio a essas instituições e por último como isso se aplica pelo governo no corpo social através do biopoder.
4- Produção:
O filme será composto por várias entrevistas e depoimentos. Serão coletadas imagens reais em meio às instituições abordadas nesse roteiro e quando isso não for possível elas serão produzidas ficcionalmente pelos próprios alunos responsáveis pela gravação do filme: Geilson, Janaína, Tânia e Allen, graduandos em filosofia pela PUC-PR.
5- Proposta do livro didático:
O filme tem o propósito de incentivar o telespectador a refletir sobre essa situação de docilização à qual ele é submetido para se tornar produtivo em meio a essa sociedade moderna ocidental e isso será feito se estudando as situações extremas da sociedade, situações encontradas à margem do sistema social, à margem da atuação do governo.
Mas por que situações marginais são tomadas como ponto de partida para essa conscientização? Na arqueogenealogia, Michel Foucault estuda as origens de força que nos conduzem a nos tornar o que somos como sujeitos e também enquanto objetos de práticas e de saberes. Pegando instituições de análise que estão num limite da experiência humana (prostíbulos, prisões, conventos, hospícios, escolas), a fim de descrever as bordas de nossa sociedade, ele chega com essas investigações e arquivamentos a resultados que muitas vezes causam estranhamento e um sentimento de distância, como se fossemos estrangeiros em relação a nós mesmos. Da experiência-limite vem as formas de ele constituir o saber, utilizando a ordem das coisas e o pensamento daquele que vive essas experiências-limite. Tentando então trazer a luz esse desnível da cultura ocidental (a sensação de estranheza em relação aos resultados aos quais ele chega), é que ele restitui as rupturas, falhas e instabilidade dessa cultura, infundindo inquietações a seus leitores, conscientizando-os de seus próprios desconhecimentos.


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