
A terapia de si mesmo pode ser vista nos trâmites da filosofia de formas muito distintas. Já na introdução do livro o professor e doutor em filosofia Daniel Omar Perez demonstra algumas vertentes filosóficas que se preocuparam em estabelecer conceitos em torno desse tema.
Para filósofos professores a terapia seria a criação de um modo de ser contra o mal estar de uma existência desagradável. Esse processo se daria sem o recurso de receituários prontos, mas sim se instalaria como propiciadora de condições para que o sujeito descubra o melhor caminho para si mesmo.
Entre os pitagóricos a contemplação, a meditação, a abstinência, as técnicas de purificação (escutar músicas suaves, sentir perfumes agradáveis...), o exame da consciência antes de dormir são exercícios de controle dos desejos, os quais seriam atitudes propedêuticas, indispensáveis para libertação da alma.
Entre os cínicos, a terapia viria como a objetivação de uma vida sem artifícios, sem mentiras, sem dono, doenças. A cura seria a conseqüência dessa vida.
Na seqüência são feitas ponderações sobre a escola de Hipocrates. Segundo essa vertente de pensamento existiam duas medicinas, uma para escravos (que tinha caráter reparatório, apenas para os manter aptos para o trabalho), e uma medicina para homens livres (que era preventiva). O médico deveria se comprometer com um caráter comunitário e conhecer a fundo a natureza do homem tendo como base a medicina e a filosofia, entendendo, assim, como o homem se relaciona com alimentos, bebidas e hábitos.
No epicurismo o modo de vida sugerido como forma de cura consistiria em um cuidado de si constante e não só em momentos de perigo e crise: conhecer tudo que diz respeito a nós mesmos independente do momento. Os membros dessa escola se afastam da política e dos cargos públicos porque essas atividades, segundo eles, não proporcionariam bem e eram vistas como contrárias ao filosofar, pois não favoreciam o caminho para o alcance da felicidade.
Para cristãos e judeus o tratamento se dava no encontro com Deus. Deve-se tratar corpo e psique através do desapego de prazeres, do livrar-se das desorientações que os desejos causam, das tristezas e dos medos. Esse tratamento se dá a partir da renúncia das vontades da vida mundana e a finalidade com isso seria a cura eterna.
Rousseau, nessa seqüência histórica, vem retomando o conhece-te a ti mesmo. Segundo ele, ao se conhecer o homem se vê em um estado de natureza e se cura das doenças. Uma vez que doença e a vida em sociedade para ele estão ligadas, seria a sociedade a causadora das doenças, e a forma de se safar dessas enfermidades seria conhecendo-se.
A ciência e as práticas terapêuticas devem ter um crivo, um cuidado com a filtração dos profissionais que trabalharão nessa área em nome da saúde pública, afinal não se pode brincar com o processo de formação de um modo de vida.
Outros filósofos clássicos tratam do tema da cura. Montaigne, Nietzsche, Wittgenstein, Sêneca, Kant, são exemplos de filósofos que trataram do tema e terão suas conclusões abordadas no decorrer do livro. Enfim, a cura é um tema muito valorizado e continua sendo atualmente entre filósofos, e deve ser tratado com o maior respeito, pois traduz a formação de modos de vida que com certeza refletirão no restante da sociedade.

Um comentário:
Antonio Macedo dos Santos
A graduanda em filosofia Tânia Paschoal, em sua resenha sobre a introdução do livro Filósofos e terapeutas: em torno da questão da cura, elaborada por Daniel Perez, doutor em filosofia pela UNICAMP e professor da PUCPR, faz uma detalhada descrição de como o autor constrói o trabalho.
Em um primeiro momento ela expõe a dedicação dos pitagóricos à contemplação, à meditação, à abstinência, etc. como maneiras indispensáveis para se alcançar a libertação da alma. Uma marca do comentário de Paschoal é o constante cuidado de colocar como a filosofia era, antes de tudo, um modo de vida, é o que se nota, principalmente, quando se comenta os cínicos, que buscavam viver sem artifícios e sem mentiras. A cura seria conseqüência desse modo de aproveitar os dias de existência.
A autora traz à luz também as afirmações que Perez realiza sobre a escola de Hipócrates, pai da medicina. Vertente segundo a qual existiam duas medicinas, uma para os escravos (que tinha a finalidade de mantê-los aptos para o trabalho), e uma para os homens livres (preventiva). O médico deveria ser comprometido com um caráter comunitário e conhecedor profundo da natureza do homem baseando-se na sua ciência e na filosofia, entendendo, assim, como este se relaciona com alimentos, bebidas e hábitos.
Aborda-se, ao se fazer menção aos cristãos e judeus do início de nossa era, que o tratamento - que consistia numa renuncia às coisas do mundo, no desapego aos prazeres, livrar-se das desorientações promovidas pelos desejos - se dava no encontro com Deus, no deserto e o desígnio de todo esse processo é uma cura eterna.
Tânia Paschoal traz, por fim, a figura de Rousseau, que retomava o “conhece-te a ti mesmo”, do oráculo de Delfos, apregoando que, segundo este pensador, conhecendo-se, o homem se veria num estado de natureza no qual se curaria as doenças, que são causadas pela vida em sociedade. No entanto, poder-se-ia adentrar ainda mais nesta parte da introdução da obra, uma vez que nela são realizadas alusões sobre a desigualdade no modo de vida, o trabalho em excesso de alguns e de outros não, a boa alimentação dos ricos e as péssimas dos pobres, etc.
Por fim, o texto ressalta a importância “de um crivo”, um preparo e uma escolha mais apurada dos profissionais que trabalharam na saúde pública, porque “não se pode brincar com a formação de um modo de vida”. Ao mesmo tempo em que esse comentário se mostra um tanto distante do tema desenvolvido, pois passa do âmbito filosófico para um, digamos, simplesmente profissional, é de uma grande importância, pois, conforme sabemos, a população merece e precisa ser bem tratada. Louva-se, e aqui se dá o término deste escrito, a redação e a organização das quais é portador o comentário da graduanda.
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