terça-feira, 11 de março de 2008

Sobre o título desse blog


Figura: foto de Michel Foucault, afinal tenho aprendido muito com ele.

Tendo em vista o livro " A hermenêutica do sujeito", de Michel Foucault, percebe-se que entre os antigos, a ética vem como um conjunto de normas de conduta que tem como finalidade o alcance da verdade, verdade como um sentido de matriz de ações. Quem segue esses conselhos tem um aparato suficiente para agüentar as vicissitudes da existência. E essa aquisição de ações só ocorre se o sujeito se predispõe a uma ascese (elevação), a qual prescinde de um cuidado consigo.
Segundo Michel Foucault, o conhecimento de si (gnôthi seautoû), fundado entre os antigos, é sempre referido ao princípio capital do cuidado de si (epiméleia heautoû). A exaltação do primeiro imperativo só ocorre, pois, nessa época, na cidade de Delfos, considerada o centro geográfico do mundo, se encontrava o templo de Apolo com a inscrição “gnôthi seautôu”. Na realidade, segundo esse pensador, o “conheci-te a ti mesmo” faz parte de um conjunto de recomendações referentes ao modo adequado pelo qual alguém deve se preparar para consultar o deus Apolo. Assim, é preciso evitar questões inúteis reduzindo-as ao necessário (“nada em demasia”), é também necessário prescindir promessas que não se pode cumprir (“comprometer-se traz infelicidade”) e ainda há a necessidade de se examinar o que realmente é preciso saber (“conhece-te a ti mesmo”).


Esse imperativo “conhece-te a ti mesmo” surge na filosofia em torno da figura de Sócrates. Platão, em “Defesa de Sócrates”, indica que esse imperativo constitui um desdobramento do principio do cuidado de si, uma vez que Sócrates sempre buscou impelir os outros a se ocuparem de si mesmos, a terem cuidados consigo (no próprio livro é mostrada a orientação que ele confere a Alcebíades na conversão a si para que o discípulo pudesse ter qualidades para se tornar efetivamente governador de seu povo). O solo da epiméleia heautoû (cuidado de si) diz respeito, então, à atitude diferente consigo, com os outros e com o mundo; indica a conversão do olhar do exterior para o interior (vigilância do que ocorre no pensamento); sugere ações exercidas de si para consigo mediante as quais alguém tenta modificar-se; designa maneiras de ser, de práticas para a relação entre sujeito e verdade e formas de reflexão.

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