
Entre os povos de cultura mediterrânea costuma se confundir a filosofia antiga com a filosofia grega. Ocorre a valorização da segunda, pois foi ela que despertou as raízes da curiosidade por aprender problemas por detrás da aparência móvel e inconstante das coisas, foi através dela que essas civilizações receberam os primeiros juízos de valor e é nela que se encontram os pressupostos para a origem do humanismo clássico. No entanto, o nascimento da filosofia não é grego, há um trajeto de caráter filosófico percorrido até se chegar à Atenas dos séculos V e IV onde se assistiu à imersão do talento de Sócrates, de Platão e de Aristóteles.
Primeiramente deve-se ressaltar toda poética homérica dos séculos X-VIII a.C., que deixou obras como “A Ilíada” e “A Odisséia”. Outro expoente nessa vertente poética é Hesíodo juntamente com suas obras a “Teogonia” e “Os trabalhos e os dias”, as quais já demonstram o anseio de seus autores por conhecimento e descrições além da face imediata dos acontecimentos da realidade.
Na seqüência deve-se dar atenção às tragédias de Sófocles (IV a.C.). Antígona e Édipo foram peças teatrais passíveis de inúmeras reflexões filosóficas, apenas como exemplo segue uma frase do personagem principal de “Édipo rei” a respeito de um velho sábio e cego de seu reino: “Creio que Tirésias, mesmo cego, enxergastes”. Essa frase ilustra um questionamento sobre a relação sentidos e sabedoria, mostra que não se deve ter os meios empíricos como única fonte de conhecimento, sendo uma pessoa presa exclusivamente aos sentidos limitada.
Após essa etapa poética e trágica do nascimento da filosofia chega-se às produções originadas na Jônia, primeira região helênica a produzir um pensamento propriamente filosófico. Nesse contexto se destacam os primeiros físicos Tales de Mileto e seus discípulos Anaximandro e Anaxímenes, os quais estabeleceram analogicamente relações entre figuras geométricas definidas e fixas com a vida embrionária, biológica.
Com eles se iniciaram as discussões sobre cosmogonia, ou seja, procuravam esclarecer o elemento unificador das coisas, qual o elemento que existe em todas as coisas e constrói a identidade dessas coisas para posteriormente permitir que elas se reúnam no todo supremo, já que filosofia não pretende ver apenas diversidade das coisas, mas também seu todo. Tales designou a água como esse elemento unificador e princípio das coisas; Anaximandro por não concordar com a idéia de um elemento com características tão particulares como a água dar origem a coisas tão distintas a ela como sol ou terra, atribui esse papel unificador ao apeíron, o qual seria uma substância que carrega todos os contrários, a unidade originária de tudo contém os opostos sempre reunidos, unificados e guardados. Anaximandro atribui a uma força divina o governo desse apeíron formador de todas as coisas e com isso acaba suscitando muito dos problemas que serão pano de fundo de toda filosofia ocidental. Anaxímenes vem em seguida questionando esse apeíron, pois se a origem de tudo for atribuída a uma substância isso não explicaria a causa que determina o processo cósmico.
Heráclito é outro filosofo dessa região jônica, para o qual se o calor não se opusesse ao frio, o dia à noite, a saciedade à fome, não existiria calor, dia e saciedade, pois a discordância e a oposição são o próprio princípio de concordância e unidade das coisas. A Jônia se mostra, então, o principal centro de cultura helênica desde o período arcaico até o século VI, pouco depois é substituída pelas cidades de Siracusa, Leontinos e Agrigento, na Sicília e por Crotona e Eléia na Itália. De Eléia se vêem os trabalhos de Xenófanes que escreve sobre a eternidade e a unidade do mesmo; e Parmênides que defende a imutabilidade do ser.
A partir desse momento a história da filosofia se confunde com a história de Atenas, e mesmo após sua ruína devido à guerra do Peloponeso continua a exercer influência cultural determinante na cultura ocidental. A glória de Atenas continuou inabalável devido às conquistas de Alexandre que abriram caminho à expansão desse espírito grego por onde suas conquistas caminhavam, Alexandria representou um local de retransmissão da cultura ateniense. Mas por que todo esse glamour se relaciona à Atenas? Simplesmente porque foi nela que habitou Sócrates, o “grande divisor de águas” da filosofia, que direcionou os pensamentos filosóficos para o indivíduo, cobrando de seus discípulos o cuidado de si, e ainda abriu espaço para estudos metafísicos; Platão vem como uma desses discípulos, e ele dá uma resposta a questão da essência das coisas. Heráclito já dizia que tudo flui, Platão acrescenta a isso que algo permanece, persiste e representa a essência das coisas, o que seria a idéia. Em resposta a Platão vem seu discípulo Aristóteles para o qual a verdade não está na idéia, mas sim na relação matéria e forma que confere particularidade e cada coisa. Após Aristóteles, vem a época do grande conquistador Alexandre, e Zenão funda no início do século III a escola estóica exprimindo-se sobre o Pórtico, e o Jardim assiste ao desabrochar do Epicurismo.
Enfim, todas as características marcantes da filosofia grega: a força perturbadora característica da metafísica pré-socrática, o poder da interrogação que define Sócrates, o gosto de Platão pelo mistério idealístico, o rigor consciencioso de Aristóteles interessado em juízos exatos sobre os objetos do mundo, acabam se diluindo em meio a cultura latina e o período de Alexandre vê nascer o estoicismo, o epicurismo e a ceticismo, cujo êxito já se mistura com o mundo romano, porém essa já seria uma outra história.
Referências bibliográficas
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martin Fontes, 2004.
DUMONT, Jean-Paul. A filosofia antiga. Lisboa: edições 70, 1962.
SEVERINO, Emanuele. A filosofia antiga. Lisboa: edições 70, 1984.
ALVES, M. dos Santos. Os pré-socrático. Lisboa: textos filosóficos, 1985.
Primeiramente deve-se ressaltar toda poética homérica dos séculos X-VIII a.C., que deixou obras como “A Ilíada” e “A Odisséia”. Outro expoente nessa vertente poética é Hesíodo juntamente com suas obras a “Teogonia” e “Os trabalhos e os dias”, as quais já demonstram o anseio de seus autores por conhecimento e descrições além da face imediata dos acontecimentos da realidade.
Na seqüência deve-se dar atenção às tragédias de Sófocles (IV a.C.). Antígona e Édipo foram peças teatrais passíveis de inúmeras reflexões filosóficas, apenas como exemplo segue uma frase do personagem principal de “Édipo rei” a respeito de um velho sábio e cego de seu reino: “Creio que Tirésias, mesmo cego, enxergastes”. Essa frase ilustra um questionamento sobre a relação sentidos e sabedoria, mostra que não se deve ter os meios empíricos como única fonte de conhecimento, sendo uma pessoa presa exclusivamente aos sentidos limitada.
Após essa etapa poética e trágica do nascimento da filosofia chega-se às produções originadas na Jônia, primeira região helênica a produzir um pensamento propriamente filosófico. Nesse contexto se destacam os primeiros físicos Tales de Mileto e seus discípulos Anaximandro e Anaxímenes, os quais estabeleceram analogicamente relações entre figuras geométricas definidas e fixas com a vida embrionária, biológica.
Com eles se iniciaram as discussões sobre cosmogonia, ou seja, procuravam esclarecer o elemento unificador das coisas, qual o elemento que existe em todas as coisas e constrói a identidade dessas coisas para posteriormente permitir que elas se reúnam no todo supremo, já que filosofia não pretende ver apenas diversidade das coisas, mas também seu todo. Tales designou a água como esse elemento unificador e princípio das coisas; Anaximandro por não concordar com a idéia de um elemento com características tão particulares como a água dar origem a coisas tão distintas a ela como sol ou terra, atribui esse papel unificador ao apeíron, o qual seria uma substância que carrega todos os contrários, a unidade originária de tudo contém os opostos sempre reunidos, unificados e guardados. Anaximandro atribui a uma força divina o governo desse apeíron formador de todas as coisas e com isso acaba suscitando muito dos problemas que serão pano de fundo de toda filosofia ocidental. Anaxímenes vem em seguida questionando esse apeíron, pois se a origem de tudo for atribuída a uma substância isso não explicaria a causa que determina o processo cósmico.
Heráclito é outro filosofo dessa região jônica, para o qual se o calor não se opusesse ao frio, o dia à noite, a saciedade à fome, não existiria calor, dia e saciedade, pois a discordância e a oposição são o próprio princípio de concordância e unidade das coisas. A Jônia se mostra, então, o principal centro de cultura helênica desde o período arcaico até o século VI, pouco depois é substituída pelas cidades de Siracusa, Leontinos e Agrigento, na Sicília e por Crotona e Eléia na Itália. De Eléia se vêem os trabalhos de Xenófanes que escreve sobre a eternidade e a unidade do mesmo; e Parmênides que defende a imutabilidade do ser.
A partir desse momento a história da filosofia se confunde com a história de Atenas, e mesmo após sua ruína devido à guerra do Peloponeso continua a exercer influência cultural determinante na cultura ocidental. A glória de Atenas continuou inabalável devido às conquistas de Alexandre que abriram caminho à expansão desse espírito grego por onde suas conquistas caminhavam, Alexandria representou um local de retransmissão da cultura ateniense. Mas por que todo esse glamour se relaciona à Atenas? Simplesmente porque foi nela que habitou Sócrates, o “grande divisor de águas” da filosofia, que direcionou os pensamentos filosóficos para o indivíduo, cobrando de seus discípulos o cuidado de si, e ainda abriu espaço para estudos metafísicos; Platão vem como uma desses discípulos, e ele dá uma resposta a questão da essência das coisas. Heráclito já dizia que tudo flui, Platão acrescenta a isso que algo permanece, persiste e representa a essência das coisas, o que seria a idéia. Em resposta a Platão vem seu discípulo Aristóteles para o qual a verdade não está na idéia, mas sim na relação matéria e forma que confere particularidade e cada coisa. Após Aristóteles, vem a época do grande conquistador Alexandre, e Zenão funda no início do século III a escola estóica exprimindo-se sobre o Pórtico, e o Jardim assiste ao desabrochar do Epicurismo.
Enfim, todas as características marcantes da filosofia grega: a força perturbadora característica da metafísica pré-socrática, o poder da interrogação que define Sócrates, o gosto de Platão pelo mistério idealístico, o rigor consciencioso de Aristóteles interessado em juízos exatos sobre os objetos do mundo, acabam se diluindo em meio a cultura latina e o período de Alexandre vê nascer o estoicismo, o epicurismo e a ceticismo, cujo êxito já se mistura com o mundo romano, porém essa já seria uma outra história.
Referências bibliográficas
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martin Fontes, 2004.
DUMONT, Jean-Paul. A filosofia antiga. Lisboa: edições 70, 1962.
SEVERINO, Emanuele. A filosofia antiga. Lisboa: edições 70, 1984.
ALVES, M. dos Santos. Os pré-socrático. Lisboa: textos filosóficos, 1985.

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